Raul Manarte: em cenários de guerra, crianças “retratam funerais” durante as brincadeiras

Em entrevista ao JPN, Raul Manarte fala sobre o impacto da guerra nas crianças. O psicólogo humanitário já esteve em várias missões internacionais – a mais recente, na Faixa de Gaza.

Raul Manarte em Gaza, numa missão humanitária dos Médicos Sem Fronteiras. Foto: Raul Manarte

Raul Manarte tem uma vasta experiência em cenários de guerra e conflito. O psicólogo portuense é gestor de atividades de saúde mental nos Médicos Sem Fronteiras, tendo prestado apoio em várias missões humanitárias em locais como Moria (Grécia), Gaza (Palestina), Guiné-Bissau, Índia, Moçambique, Bolívia, Brasil, Ucrânia e Sudão do Sul.

A sua visão como ativista pelos direitos humanos está também presente no seu projeto musical – nos videoclipes das canções que compõe, mostra registos do que testemunhou durante o seu trabalho internacional – e nas fotografias que regista durante as missões.

Em 2023, lançou o livro “O Altruísmo Não Existe”, onde reflete sobre o papel e importância do voluntariado.

Nesta entrevista, falou com o JPN sobre o impacto da guerra na vida e desenvolvimento das crianças.

JPN – Como é que foi o seu primeiro contacto com o trabalho humanitário? O que é que o motivou a começar?

Raul Manarte (RM) - O que me motivou foi a raiva. Em 2016 a Europa fez um acordo com a Grécia e com a Turquia para manter lá os refugiados. E fechou as fronteiras, ou seja, as pessoas que fugiam da guerra da Síria, da Líbia, etc., já não podiam entrar [no resto da Europa], deslocar-se cá dentro e escolher os seus países. E criaram-se campos de refugiados completamente desumanos. Este acordo foi feito em março de 2016, e eu fui para o campo de refugiados de Mória, na Grécia, em dezembro. Foi a partir daí.

JPN - Dessas várias experiências, qual foi a mais desafiante?

RM - Foram todas, por diferentes razões. Moria, porque é na Europa e não há absolutamente desculpa nenhuma para as condições desumanas e ilegais em que as pessoas são mantidas. Gaza, porque os ataques eram constantes, o risco de morte também, os crimes de guerra, os ataques a hospitais e a escolas, os ataques a trabalhadores humanitários, e por impedirem que as pessoas saiam e que se tornem refugiadas, que é um direito da lei internacional humanitária. Sudão do Sul, porque ninguém conhecia o que se passava. Nos ataques terroristas que ocorreram em Moçambique, porque nós próprios fomos atacados. Todas foram desafiantes por diferentes razões.

JPN - No que toca às crianças e jovens, qual é o principal impacto de viver e crescer num cenário de guerra?

RM - Não há um principal impacto, podem ser múltiplos e mais que um ao mesmo tempo. Estão numa situação em que são constantemente expostas a eventos potencialmente traumáticos, portanto varia muito. As próprias crianças podem ser atingidas, podem ser amputadas. A mãe pode ter morrido ou não, pode ter morrido à frente deles ou não, podem ter assistido a mortes familiares, a umas pessoas a matarem outras. Podem ter sido afastados da família, podem ter os pais presos, podem saber que os pais estão a ser torturados. São tantas coisas más e também tantos fatores protetores que podem acontecer… Podem ter um membro da família que está a tomar conta deles ou não, podem estar na zona onde cresceram ou podem ter sido removidos, podem passar fome ou não, pode haver um fim à vista ou não. É impossível [escolher um].

JPN - Tem alguma história que lhe tenha ficado particularmente na memória, e que seja representativa desta complexidade de situações?

RM - Várias. Tenho a história de uma miúda de oito anos com as duas pernas amputadas, cuja irmã também tem uma perna amputada, cujo pai está preso e, tanto quanto eu sei, a ser torturado, cuja mãe morreu, e que não podem ser evacuadas porque nós não conseguimos tirar pessoas.

JPN - Neste caso, em Gaza…

RM - Sim, exatamente. No caso do Sudão do Sul, há miúdos que estão agrilhoados pelos tornozelos, não sei desde quando – até já se vê o osso deles –, que têm sintomatologia psicótica e não há medicação [disponível lá], portanto as famílias não conseguem controlar estas pessoas e têm de as prender.

JPN - Esse estado é causado pela situação em si?

RM - Não, mas é agravado. São pessoas já com sintomatologia psicótica e depois quando há conflito ou uma crise qualquer, este tipo de sintomatologia é agravado. E como são deslocados e não estão nas casas deles, os miúdos não conseguem controlar tão bem o comportamento, pois não têm os fatores protetores – como a organização do espaço, a vizinhança, outros adultos que ajudam... Estão no campo de refugiados, não têm acesso aos cuidados tradicionais ou aos cuidados habituais que tinham antes.

JPN - Tenho ideia que, muitas vezes, as escolas são um dos principais sítios que acabam por ser desativados. A educação das crianças continua a acontecer, mesmo que de forma não regular?

RM - Normalmente a educação continua a acontecer e mantém-se de uma forma espontânea e improvisada pelos adultos. Em quase todos os contextos – até mesmo para crianças órfãs – há um adulto ou vários adultos que se organizam para tomar conta dos miúdos e tentam de alguma forma continuar a providenciar-lhes uma rotina e, na medida do que é possível, estimulação cognitiva e aulas, entre muitas aspas.

JPN - Até para estimular a socialização entre pares...

RM - Sim, estimular a socialização entre eles e criar uma rotina. A rotina gera segurança, e assim é mais fácil para as próprias crianças regularem o seu comportamento. As atividades desafiantes e lúdicas também permitem baixar a sintomatologia ansiosa e depressiva, permitem estirar a mente do que está a acontecer.

Isto acontece espontaneamente em quase todos os contextos, e a equipa de saúde mental na intervenção de crise e catástrofe também tenta ajudar ou potenciar que isso aconteça.

JPN - E acabam por dar um suporte mais técnico, até para que este tipo de atividades seja ainda mais direcionado para um desenvolvimento saudável, suponho eu.

RM - Pode ser, numa parte mais técnica e ajustada ao nível de desenvolvimento mental, se assim tiver que acontecer. E às vezes nós trazemos, por exemplo, dinheiro, capacidade logística para levar uma pessoa de um sítio para outro, ou para conseguirem materiais de apoio ao estudo, que de outras formas não conseguiriam.

JPN - À primeira vista acreditamos que o ato de brincar seja algo que as crianças falam, seja qual for a situação… Há momentos de brincadeira, mesmo em cenários de guerra?

RM - Sim, sem dúvida. Mas nem todas brincam. Há crianças que estão afetadas por uma sintomatologia tão intensa e traumática que não brincam, não expressam emoção nenhuma. Algumas têm mutismo seletivo, não falam. Estão traumatizadas, estão em choque. Nós em Gaza organizamos cinema infantil de desenhos animados, e nenhuma se ria, apesar de estarem com a atenção total no que estava a acontecer. Mas sim, a brincadeira acontece em todos os contextos. Não quer dizer que todas estejam capazes de brincar, mas encontras brincadeira em qualquer contexto, até nos mais horríveis.

JPN - As crianças brincam muito por imitação. E nestes cenários assistem a bombardeamentos, a tiros, a pessoas com armas... Elas trazem este tipo de realidade para as brincadeiras? Tentam reproduzi-la?

RM - Sim, trazem o que vêem para a brincadeira – ou até no desenho, na pintura, ou no faz-de-conta. Retratam funerais que viram, ou fazem de conta que estão a revistar as pessoas, como aconteceu nos campos de refugiados de Moria, por exemplo. Incorporam [o que testemunham] e isso é encorajado por nós, até, como uma forma de processarem aquilo que viram. É encorajado no sentido em que nós permitimos, fazemos questões e elaboramos a partir daí, não é orientarmos para desenhar o que viram.

JPN - Até para que eles tenham uma forma de ‘digerir’ o que vivem…

RM - Exatamente. E depois para conversar com eles sobre isso, e até trazer os cuidadores – os pais, as mães, o tio ou a tia, ou seja lá quem for – para poderem ter conversas sobre isso. Muito do nosso trabalho com crianças é com os cuidadores.

JPN - Estas crianças conseguem confiar em vocês?

RM - Sim e não. Ou seja, às vezes demora até conseguirem confiar. Mas depende, lá está, de vários fatores. Se tiverem a mãe ainda viva e a mãe confiar [em nós] é muito mais fácil. Se tiverem alguém de referência que se manteve intacto durante isto tudo, então também é mais fácil.

Agora, se as próprias figuras de referência lhes foram retiradas por morte ou por outro motivos quaisquer, ou se as figuras de vinculação eram elas próprias agressoras – que acontece de todo lado, nem é preciso estar numa guerra – então é mais difícil criar vínculo e confiança e temos de trabalhar mais para isso.

JPN - Esta falta de normalidade, as constantes deslocações e alterações à rotina... Acredito que faltem algumas condições mínimas necessárias para o crescimento. Claro que do ponto de vista físico certamente acontecerá – mas a nível psicológico que represálias é que isto pode causar? Há etapas de crescimento que se saltam?

RM - Exato. Ou pode haver atraso de desenvolvimento mental. Muitas apresentam regressão de desenvolvimento mental. Por exemplo, já não faziam xixi na cama e passam a fazer. Ou já iam sozinhas para um sítio qualquer e agora têm de ir acompanhadas. Algumas desenvolvem perturbação de vinculação reativa: evitam contacto próximo com cuidadores, até com os cuidadores que já tinham.

E outras têm uma perturbação quase contrária do desenvolvimento social desinibido, em que muito facilmente dão a mão a qualquer adulto, a qualquer pessoa, e tentam uma intimidade física muito forte, muito rapidamente.

A evolução do quadro ao longo do tempo também depende de múltiplos fatores. Quão rapidamente conseguem estar em segurança e quão rapidamente têm uma figura de vinculação que seja estável e segura (ou não). Tendo algumas dessas condições, conseguem recuperar e ultrapassar a maior parte da sintomatologia. Agora, se não tiverem... Isto depende de múltiplos fatores. Um fator mais individual é, por exemplo, se a mãe está viva ou não e se a mãe é capaz de responder ou não. E um fator mais macro é se vai haver justiça naquele cenário ou não. Ou seja, se os agressores são levados à justiça e se há reparação ou se não há. Isso tem muita influência na cura da comunidade. O que, por sua vez, vai ter influência no bem-estar daquela criança.

JPN - No caso concreto de Gaza – que acredito que tenha uns contornos um pouco diferentes, uma vez que não dá para sair de lá – como é que a população e as crianças reagem ao facto de conseguirem perceber que há gente a entrar e que depois vai sair e que eles continuam lá?

RM - Essa é uma excelente questão. Não só em Gaza, mas em qualquer cenário de crise e catástrofe. É um dos possíveis impactos negativos da ação humanitária: criar vínculos emocionais que depois são desfeitos. Nós tentamos minimizar isso. Tentamos que a maior parte do trabalho direto, de intervenção e de criação de laços, seja feito pela equipa local – que depois fica lá, mesmo quando nós saímos. É claro que, no início, temos que ser nós a fazer a intervenção, enquanto não há equipa, etc. E isso aplica-se em qualquer contexto. Mesmo no Sudão do Sul… Vêem-me a chegar e depois a sair, não é?

Agora, o que se passa em Gaza… Não há nada semelhante registado, a nível dos índices de sofrimento mental. Nada. É incomparável. Mesmo antes dos ataques de 7 de outubro, que despoletaram isto tudo, já 60% das crianças tinha comportamentos autolesivos, ou seja, cortava-se ou magoava-se. E mais de metade tinha a ideação suicida, pensava em matar-se. Normalmente, os índices de stress pós-traumático andam entre os 20-30% em crise e catástrofe. Em Gaza, é o dobro ou o triplo. Há estudos que apontam para que 100% das crianças tenham sintomatologia compatível com sintomatologia traumática. Nós nunca vimos isto em nenhum conflito moderno. Acho que é um sinal de que falhamos todos.

JPN - As crianças eventualmente tornam-se adultos. O que é que pode acontecer a estas crianças que viveram grande parte da infância num cenário de guerra? Em que tipo de adultos é que se podem tornar? A nível da empatia, a nível da gestão, autorregulação, entre outros?

RM - Há uma panóplia de caminhos que podem ocorrer, desde o mais favorável ao mais desfavorável. No mais favorável, as pessoas até têm crescimento pós-traumático. Ou seja, há certos índices – e isto é aplicado mais aos adultos – que, depois de superarem o trauma, até vão acima do que estavam antes do trauma. Por exemplo, pessoas que são amputadas e ganham uma missão de vida ou um significado pela vida que tem muito a ver com o que passaram, e ganham um propósito.

Depois há pessoas ou crianças que conseguem resolver a sintomatologia – em mais tempo ou menos tempo, em mais anos ou menos anos –, e depois conseguem manter laços na mesma, ter uma vida saudável, ter propósito, ter uma vida que vale a pena viver.

No entanto, há pessoas que não resolvem a sintomatologia traumática e podem desenvolver perturbação depressiva crónica ou ansiedade generalizada ou stress pós-traumático, que os mantém em sofrimento constante. E depois… nós sabemos que conflito gera conflito, não é? E sobretudo quando não há justiça. Pode levar a mais conflitos ao nível comunitário. Eu não sei bem como é que isso ocorre ao nível individual, e as narrativas que temos no terreno nunca são essas. Nos piores cenários, o que as pessoas querem é paz e tranquilidade e que aquilo acabe. Nunca falam em que um dia vão retaliar, ou coisas assim. E nós sabemos até, pelas amostras de comportamento humano, que isso é a exceção e não a regra. Mas o que as pessoas querem ali é ver as suas necessidades fundamentais endereçadas e respondidas.

JPN - Há crianças que nunca conheceram outra realidade, já nasceram em cenário de conflito e é tudo o que conhecem. Mas há outros que tinham uma infância ‘normal’ e de repente deixaram de ter. O que é que elas supõem? Acredito que os pais também tentem explicar o que é que aconteceu e dar-lhes aqui algumas respostas. Mas o que é que elas assumem que pode ter acontecido?

RM - Depende da narrativa que tu lhe deres. Depende da narrativa que os pais ou os cuidadores lhe passam. É mesmo muito variável. Podem não explicar e só dizer que tiveram de sair de casa porque alguma coisa aconteceu. Podem dizer que há pessoas que não gostam deles. Podem dizer que é um teste que Deus deu e que estão a superar e vão conseguir superar também com a ajuda de Deus, etc. Depende da narrativa que os pais lhe derem. É um pouco como a morte, nos nossos contextos. Depende sempre da narrativa que os pais dão à criança

JPN - E dependendo dessa narrativa, a resposta também será diferente, não? A resposta das crianças…

RM - Sim. Se for uma narrativa que transmita a esperança – a esperança da resolução, a esperança da melhoria –, é sempre melhor.

Se sentires a confiança do teu pai ou da tua mãe, sentes que as coisas estão mal, mas vão melhorar. Então, é sempre o melhor preditor para o bem-estar da criança. Quando tens pais que estão completamente assoberbados, desesperados e que já não conseguem filtrar o que passam para baixo, que põem carga para baixo, então isso é muito pior.

JPN - Pensando na sua experiência com os Médicos Sem Fronteiras, qual é o papel dos psicólogos nestas equipas? O que é que vocês fazem em concreto quando chegam lá pela primeira vez?

RM - Nós somos gestores das atividades de saúde mental. Quando chegamos, queremos avaliar rapidamente quais são as necessidades, quais são os grupos que precisam de maior intervenção, que tipo de intervenção fazer, e começar logo a formar a equipa local para fazê-lo, para começar a dar cuidados diretos à população. Normalmente tem de haver um intérprete. Ao chegarmos ao cenário, começámos a falar com pessoas-chave, líderes de comunidades, autoridades de saúde (se existir), algumas populações vulneráveis que já sabemos que existem à partida, – mulheres, crianças, idosos, minorias perseguidas, pessoas que já tinham patologias anteriores, – e tentamos perceber o que é preciso fazer para melhorar o bem-estar desta população. Começamos imediatamente a formar uma equipa local que vai dar estes cuidados à população. No início, quando não há equipa, nós vamos providenciando esses cuidados ao mesmo tempo que a vamos formando, e depois ficamos numa posição mais de gestão.  E depois somos chamados para casos mais complicados, ou para dar apoio à própria equipa.

JPN - Também para lhes dar mais autonomia quando vocês forem embora, não?

RM - Sim, mas às vezes se calhar ao falar parece que eu levo toda a expertise, mas sinceramente acho que eles têm a maior parte da expertise, porque eles é que conhecem a cultura e a língua, as tradições, e como é que se cura, e o que é o sofrimento. Tentamos fazer uma troca, – e não sei se estou a ser demasiado otimista, e se não são mais eles que nos ensinam a nós, – e tentamos pôr o nosso know-how a potenciar o deles.

Pode haver um contexto, por exemplo, como o de Gaza, em que há pessoas super especializadas em saúde mental, com uma experiência em trauma – pelas piores razões possíveis – imensa. Mas num contexto como o da Índia Rural ou de Moçambique Rural, em que não há nenhum profissional de saúde mental, têm de ser pessoas que vêm de outros backgrounds, ou que têm outras funções na comunidade, a quem nós tentamos emprestar um pouco dos conhecimentos que temos – e eles a nós – para criarmos esta resposta de saúde mental, que é sempre super influenciada pelo código cultural onde estamos. Por isso é que a equipa internacional nunca será mestre nesse código, e os locais sim.

JPN - Se aprendem muito com eles, quando regressam, acredito que isso também se traduza na vossa prática profissional? Como é que as aprendizagens e a experiência lá fora impactam a prática dos psicólogos e dos profissionais de saúde mental?

RM - De mil e uma maneiras. Primeiro, é mais como pessoa, eu acho. São histórias extraordinárias, são pessoas extraordinárias. Vês comportamentos e respostas… Só gostavas de conseguir fazer um décimo daquilo, se algum dia aquele inferno batesse na tua porta. Isso dá perspetiva, até como pessoa, como eu estava a dizer. Depois, profissionalmente, sim e não. Aqui [em Portugal] a cultura é outra, aqui eu conheço este código cultural. As experiências lá fora dão mais perspetiva, dão mais perspetiva da humanidade, etc., e talvez até em contextos mais fundamentais como o que é vulnerabilidade, o sofrimento, humanidade, qual é o propósito… É sobretudo isso, porque tecnicamente acumula-se experiência em crise e catástrofe, mas para a psicoterapia aqui [em Portugal] não sei se se traduz dessa forma tão direta.

JPN - E como é passar de atender utentes que estão, por exemplo, na Faixa de Gaza, e voltar a atender utentes no Porto, que têm tipos de problemas completamente diferentes?

RM - Se houver vulnerabilidade, há pouco contraste. Eu sei que isto parece estranho, mas é verdade: se as pessoas estiverem vulneráveis e a sofrer, o contraste não é muito grande.

No início da carreira eu fazia um tipo de intervenção psicológica em que nem sempre lidava com vulnerabilidade. E aí sim, era muito difícil o contraste, porque vinha de contextos em que as pessoas estavam desfeitas e em situações sociais ou humanas horríveis, e depois vinha para cá – em que a situação social e humana é muito melhor, claro –, e atendia pessoas que não estavam vulneráveis. Esse contraste não era nada fácil de lidar, para mim. Mas agora não. Como exerço psicoterapia e psicologia clínica, lido sempre com vulnerabilidade.

A dor é a dor.  A causa pode ser a A, B ou C, mas a dor é a dor.

JPN - Nessa fase inicial sentia que vinha tratar de problemas ‘de primeiro mundo’, digamos assim?

RM - Não sei se no nosso léxico distinguimos os problemas ‘de primeiro mundo’ que implicam vulnerabilidade e os que não implicam.

A causa pode ser ‘de primeiro mundo’, mas a pessoa está genuinamente a sofrer. Isso é uma coisa. Agora, se a causa é ‘de primeiro mundo’ e se está só um bocado irritada ou é uma defesa, e não se está mesmo a ir à vulnerabilidade... Então isso já seria para mim muito difícil de lidar.

Muitas pessoas têm capas narcísicas, por exemplo, em que são arrogantes ou egocêntricas, acham-se superiores. Isso é uma defesa que as pessoas criaram. Não foram bem à sua vulnerabilidade, onde aí sim, se sentem quase sempre muitíssimo inferiores. Se eu lidasse só com a capa, não sei se conseguia. Mas como psicoterapeuta eu lido com a vulnerabilidade. E aí não me custa nada.

JPN - Porque é universal…

RM - Sim, é universal, é genuíno, é sofrimento real. É muito fácil empatizar com a vulnerabilidade, independentemente do cenário e da cultura.

JPN - Nos últimos tempos tem-se vindo a falar dos cortes nos apoios a ONG’s por parte dos Estados Unidos. Esses cortes fizeram-se sentir no terreno? Está mais difícil para as ONG’s, fazer trabalho humanitário?

RM - Eu não noto porque eu sou de uma ONG independente enorme. Trabalho com os Médicos Sem Fronteiras, que são completamente independentes de qualquer financiamento estatal. No entanto, não faltam relatórios e dados concretos não só de dificuldades, mas também sobre quantas pessoas já morreram por causa disso. Isso é óbvio.

O trabalho humanitário tem muitos defeitos. Muitas vezes este ‘foreign aid’ é disfarçado de outra forma de política externa, de conseguir levar avante objetivos políticos através de ajuda internacional. E isso é só uma das características negativas do trabalho humanitário internacional – há muitas mais –, mas a solução não é cortar o financiamento e permitir que centenas de pessoas morram por causa disso. A solução é reformular o tipo de trabalho que é feito, a intervenção que é feita ou o paradigma que é usado.

JPN - Como pessoa que contactou diretamente com catástrofes, guerras, conflitos, se tivesse a oportunidade de dizer alguma coisa a um líder político de quem dependesse pôr fim a este tipo de situações, o que é que diria?

RM - Não diria ao líder político, diria aos cidadãos. Eles é que são os verdadeiros líderes. E o grande truque de manga que [os líderes] fizeram foi fazer-nos esquecer isso. Fizeram-nos achar que os líderes são eles, mas somos nós. É só uma questão de quantos de nós se levantam e seja o que for muda no mundo. A única mensagem seria sempre para as pessoas, nunca para os líderes. Eu não tenho fé nos líderes políticos. Estão a jogar um jogo. Enquanto que, por outro lado, para as pessoas bastavam cinco segundos no terreno e percebiam que não há jogo aqui. Não há lados. Não há ‘nós’ e ‘eles’.

Como eu disse, a vulnerabilidade sabe ao mesmo, em qualquer cultura e contexto. Tu ias ficar completamente aflita, desesperada de ver o que se vê numa guerra, independentemente do sítio onde estivesses. Isso só te ia bater passado mil horas – se estavas em Israel, ou na Palestina, ou na Ucrânia, no Iémen. Ou em Pedrógão, ou em Paris. Isso é completamente irrelevante. Só que ias querer parar aquilo, independentemente do sítio onde estivesses.

E a mensagem é essa: por mais histórias que te contem, tu só queres parar aquilo e tu podes contribuir para aquilo parar. Como cidadão, esteja-se onde se estiver, juntando-se a um coletivo, procurando formas de ativismo a que se pode associar. Desde as formas mais simples, como assinar uma petição e enviar um e-mail, ou participar em algumas campanhas de um coletivo. Quanto mais mobilização e atenção há, por parte da comunidade internacional, mais respostas há no terreno. E isso eu já vi a acontecer muitas vezes. Quanto mais noticiada é uma crise, melhor passam as pessoas que lá estão – a não ser em casos muito aberrantes, como em Gaza, em que toda a gente sabia [o que estava a acontecer] e mesmo assim conseguiram atomizar o que se passa ali, insular aquilo do resto do mundo.

O que digo aos cidadãos é que se mexam, porque é isso que as pessoas querem. É paz e tranquilidade.

Originalmente publicado a 07/04/2026 no JPN.

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