Moradores preocupados com plano de ampliação de Leixões: “Não queremos uma parede de contentores em Leça da Palmeira”
Plano apresentado pela APDL é contestado pela concessionária do Terminal de Contentores de Leixões e pela Câmara de Matosinhos, que admite poder recorrer a “vias legais” para travar o projeto. Grupo de cidadãos avançou com petição. O JPN ouviu o presidente da associação "Leça+Verde".
Vista virtual do plano de ampliação do Terminal de Contentor de Leixões, que tem sido alvo de críticas. Imagem: APDL
A associação “Leça+Verde” – constituída em novembro de 2025, em reação ao projeto de ampliação do Terminal de Contentores de Leixões apresentado pela Administração dos Portos do Douro, Leixões e Viana do Castelo (APDL) – contesta o plano previsto, por preocupações “acima de tudo, ambientais”.
“Aquilo que nós não queremos é que seja construída uma parede de contentores em Leça da Palmeira, nem que o tráfego de camiões triplique”, sublinhou Jorge Urbano Gomes, presidente da associação, em declarações ao JPN.
Na lista de preocupações apresentadas, estão também as potenciais consequências negativas que “os impactos visuais” desta expansão teriam na candidatura da Piscina das Marés e da Casa de Chá da Boa Nova, em Leça da Palmeira, a Património Mundial da UNESCO.
Jorge Urbano Gomes reforça que o movimento Leça+Verde não é “uma força de bloqueio”, nem é “contra o porto de Leixões”, e que o que defendem é a preservação do “equilíbrio entre a cidade e o porto [de Leixões]” – tal como é referido no abaixo-assinado apresentado pela associação que, à data, conta com mais de 1.800 assinaturas.
“Contra a vontade da comunidade, de autarcas e de muitos especialistas, a APDL desenhou um novo porto, para um milhão de contentores, em cima da nossa praia e em cima das nossas casas”, pode ler-se no formulário da petição pública contra o projeto apresentado pela entidade administradora.
APA dá luz verde, mas com condicionantes
Após fazer uma avaliação de impacto ambiental do novo terminal de contentores norte, a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) deu um parecer favorável condicionado ao projeto de ampliação, exigindo algumas medidas para a prossecução do projeto.
No relatório divulgado na quarta-feira (25), a APA refere ainda que “a esmagadora maioria das participações” na consulta pública “manifesta discordância face ao projeto” – entre as 288 intervenções de cidadãos, apenas 15 foram favoráveis -, invocando preocupações relacionadas com a degradação da paisagem, a perda de qualidade ambiental das praias, o aumento da poluição e, como um dos temas centrais da contestação, a eliminação da Marina Porto Atlântico e a potencial extinção das atividades náuticas de recreio.
O parecer da Yilport, incluído no relatório da APA, é também negativo. A atual concessionária do terminal de contentores considera o projeto “insustentável a médio e longo prazo, sendo previsível que se torne obsoleto, antes mesmo de recuperar o investimento”.
A empresa destaca a “inadequação do dimensionamento do terminal” e as “restrições de manobrabilidade marítima”. No que toca às acessibilidades, a Yilport critica o plano por não prever um “ramal ferroviário funcional para comboios de 750 metros”, o que faria com que “todo o transporte de e para o terminal” dependesse de camiões, levando ao aumento de tráfego rodoviário.
O aumento do trânsito é também uma preocupação para Jorge Urbano Gomes. “Uma das condicionantes que a APA impõe é a manutenção da Estação de Passageiros de Leixões, que é um edifício classificado como de interesse municipal, e cuja demolição ou deslocalização necessitaria sempre da aprovação da Câmara Municipal. Mantendo-se ali aquele edifício, é impossível, porque não existe espaço. É impossível criar-se ali uma linha ferroviária”, esclarece.
Por parte da autarquia, a posição publicamente assumida também tem sido de oposição ao projeto – Luísa Salgueiro, presidente da Câmara de Matosinhos, já manifestou o seu desagrado em relação aos planos para o futuro do porto de Leixões.
Na sessão extraordinária da Assembleia Municipal de segunda-feira (30), a autarca sublinhou a necessidade de uma “avaliação ambiental estratégica” mais abrangente – uma vez que a avaliação feita pela APA estudou apenas o projeto apresentado pela APDL e não teve em conta os investimentos previstos no ‘Plano Estratégico do Porto de Leixões 2025-2035’, que surgiu já depois da APA ter começado o estudo – e avisou que poderá recorrer às “vias judiciais” para impedir que se avance com o plano atual.
Luísa Salgueiro não se conforma com haver “apenas uma solução” e exige que sejam pedidos “estudos alternativos” para que se consiga garantir a competitividade do porto de Leixões, sem tantas consequências negativas.
Durante esta sessão extraordinária, a Assembleia Municipal posicionou-se também contra o projeto da APDL. Foi aprovada uma proposta nesse sentido, por maioria, com votos contra do PSD, Chega, CDU e Livre, e abstenção do CDS e IL.
A APDL foi contactada pelo JPN, mas não quis prestar declarações.
O projeto de ampliação do terminal norte proposto pela APDL foi incluído no Plano Estratégico do porto de Leixões para 2025-2035, divulgado a 27 de janeiro, numa sessão com a presença de Miguel Pinto Luz. O ministro das Infraestruturas e da Habitação considerou este plano “transformador” e disse na ocasião que vai dar ao porto “condições competitivas para poder competir com todos os portos galegos e nacionais”.
“Foi apresentado um projeto que o governo entendeu que seria exequível, mas que na realidade não é”, critica Jorge Urbano Gomes, acrescentando que “há um desconhecimento da realidade” por parte do executivo.
O plano prevê um investimento de 1.020 milhões de euros, que “contempla novas marinas, novos terminais, novo equipamentos de acesso marítimo e novas acessibilidades marítimas”, enumerou Miguel Pinto Luz.
Na sequência das várias contestações, o JPN procurou também ouvir o Ministério das Infraestruturas e se estaria a ser equacionada a reabertura da discussão sobre o projeto de expansão. De acordo com a resposta, a tutela considera que os procedimentos que estão a decorrer “nesta fase” devem ser respeitados, e que por agora não se irão pronunciar.