Crime da Rua das Flores inspira minissérie produzida pela FMUP. "Foi possível repetir a autópsia, mais de 130 anos depois"
Integralmente produzida pela FMUP, a minissérie "O Crime da Ruas das Flores" estreia esta quinta-feira (2). Em entrevista ao JPN, Ricardo Dinis Oliveira, a mente por trás desta minissérie documental, conta como foi re-investigar um crime do século XIX à luz do conhecimento científico de hoje.
Ricardo Dinis Oliveira começou a investigar o crime da Rua das Flores há cerca de 20 anos. Foto: FMUP (D.R.)
Professor catedrático da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) e investigador na área da Toxicologia, Ricardo Dinis Oliveira associa agora o seu nome a um novo projeto: a minissérie documental que revisita um dos mais célebres casos judiciais da Invicta, o crime da Rua das Flores.
O que começou por ser uma breve curiosidade partilhada com os alunos, em poucos minutos da primeira aula de Medicina Legal, veio a tornar-se uma das mais desafiantes investigações do fundador e atual presidente da Associação Portuguesa de Ciências Forenses. A partir da recolha e análise de documentos dispersos pelos quatro cantos do mundo – e da repetição da autópsia de um cadáver com mais de 130 anos – Ricardo Dinis Oliveira veio mostrar que, afinal, a história deste caso estava mal contada.
A minissérie “O Crime da Rua das Flores” – integralmente produzida pela FMUP – estreia esta quinta-feira (2), e estará disponível no YouTube, Spotify, Apple Podcasts e no site da faculdade.
JPN - O caso do crime da Rua das Flores é muito antigo. Sabe-se que envolve um médico portuense, acusado de envenenamento, e que acaba por ser condenado a oito anos de prisão e ao degredo em Angola. Como é que, na época, se julgava que este caso tinha ocorrido?
Ricardo Dinis Oliveira (RDO) - A pessoa que foi condenada neste caso, de 1890, foi um professor da antiga Escola Médico-Cirúrgica do Porto (que originou a atual Faculdade de Medicina). Esse médico, chamado Vicente Urbino de Freitas, era um médico ilustre. Foi um dos melhores alunos da Faculdade de Medicina de Coimbra — ganhou praticamente todos os diplomas de melhor estudante — e vivia na Rua das Flores, no Porto. Quando acabou o curso em Coimbra, veio para o Porto para exercer Medicina. Tinha um conjunto de utentes que o idolatravam, porque era uma das pessoas mais importantes na área, em particular no que toca a doenças da pele. As patologias da época eram sobretudo doenças cutâneas, e ele especializou-se sobretudo no tratamento da lepra. Portanto, qualquer pessoa que, no Porto, quisesse ir ao melhor médico da área, dirigia-se a Vicente Urbino de Freitas.
Ele casou-se com uma senhora chamada Maria das Dores, que terá sido sua vizinha. Vivia uns metros à sua frente, numa outra casa, no número 74 e 76 da Rua das Flores. Essa senhora tinha dois irmãos, que entretanto morreram, mas deixaram um sobrinho como descendente. Os sogros de Vicente Urbino de Freitas eram muito ricos, tinham muitas posses. Então, reza a história que qualquer descendente da família dos sogros que ficasse doente ia ser consultado pelo médico da família, o Vicente Urbino Freitas — e saía de lá vítima mortal, normalmente por alegadas intoxicações.
Este caso foi muito badalado, envolveu gente muitíssimo importante, e acabou por fazer nascer a Medicina Legal em Portugal. À custa desta alegada intoxicação, fizeram-se análises muito complexas, e a partir daqui nasce o uso da prova pericial (prova científica para efeitos judiciais) em julgamentos. E as Ciências Forenses nascem a reboque deste caso, também.
Só que o problema é que, até aos dias de hoje, sempre houve a dúvida se Vicente Urbino de Freitas tinha de facto sido culpado, ou não, pelas mortes de pessoas descendentes dos seus sogros, em particular do seu sobrinho Mário.
JPN - Está a dizer que realmente já existia uma suspeita de que a história podia estar um bocadinho mal contada, que algo não batia certo. Quando é que começou a acreditar que a realidade desta história não era a que se dizia?
RDO - Isto foi ‘do nada’. Eu terminei o meu doutoramento em 2007, e comecei a ser professor na Faculdade de Medicina do Porto, em particular, na Unidade Curricular de Medicina Legal.
Como eu queria começar por falar um bocadinho da história da Medicina Legal em Portugal, no início da Unidade Curricular, fui tentar procurar qual tinha sido o primeiro caso que teria originado o estudo deste assunto. Aí deparo-me com o crime da Rua das Flores, que já tinha um conjunto imenso de anos de investigação, já que houve muita gente ao longo da História que também tinha as suas dúvidas.
Quando eu tentei contar a história, a partir da visão científica e médico-legal do século XXI, percebi que a história indubitavelmente não estava bem contada. As substâncias que tinham originado a acusação e condenado Vicente Urbino de Freitas eram substâncias que, do ponto de vista técnico, nunca tinham intoxicado outras vítimas nos últimos 100 anos. Demorei anos a descobrir isto, porque não existiam registos na internet nem numa qualquer base de dados. E fui começando a analisar, a tentar recuperar os relatórios da autópsia, e a tentar eventualmente descobrir os cadáveres que teriam sido vítimas de Vicente Urbino de Freitas. Comecei isto há 20 anos, e estava muito longe de imaginar que um dia pudesse realmente descobrir os cadáveres, porque eles poderiam não existir 130 anos depois. Era quase utópico.
Depois de terem sido recuperado esses relatórios, as audiências de julgamento, as primeiras fotografias de doentes em Portugal – quando se começou a fotografar a evolução dos doentes ao longo da sua terapêutica — , tudo isto começou, do ponto de vista técnico-científico, a não bater ‘a cara com a careta’. Havia alguns dados que não são facilmente explicados à data de hoje, quanto mais em 1890.
E portanto, a partir daí foi tentar fazer as pazes com o passado e reconstruir esta história, que marca o início de praticamente tudo o que nós conhecemos à nossa volta, desde ruas a várias especialidades da medicina, ou até a própria Universidade do Porto…
Este caso implica, inclusive, relações com o fim da monarquia e a implantação da República, porque estamos no tempo do Rei D. Carlos, e ele mantinha toda a gente focada neste caso – como que um folhetim da época – para desviar a opinião pública dos problemas que ele tinha com a gestão das ex-colónias.
O caso de Vicente Urbino de Freitas acaba por definir muito daquilo que nós conhecemos hoje na sociedade. E era preciso reconstruir a verdade, era preciso reconstruir o caso. Fui tentando sempre procurar provas, com a noção de que pudesse nunca lá chegar. E assim, o que começou com cinco minutos de História da Medicina Legal, no início de uma unidade curricular, tornaram-se 20 anos, e sem fim à vista.
Fui olhando para as provas que se foram recolhendo, que estavam dispersas por este mundo fora – por exemplo, os registos das audiências de julgamento estavam em Toronto, no Canadá –, e a partir daí, reconstruindo estas provas, começou-se a tentar trazer a verdade científica para o caso.
E ainda hoje temos uma legião de estudantes que trabalham afincadamente no caso e ajudam a descobrir coisas, porque eles percebem a importância que este assunto tem na definição da nossa sociedade.
JPN - Nesta longa investigação que foi feita, conseguiu então descobrir um dos cadáveres e repetir uma das autópsias...
RDO - Mais recentemente, já numa fase muito evolutiva do processo. Houve um momento, depois de eu ter passado dias e dias, meses e meses, à procura de onde é que a vítima podia estar, e tendo procurado naqueles locais onde eu presumia que o cadáver fosse eventualmente estar… Foi a 27 de outubro, um domingo, de manhã, durante mais uma tentativa de encontrar a vítima, que se descobriu o cadáver da primeira alegada vítima de Vicente Urbino de Freitas.
No Natal de 1889, o cunhado de Urbino de Freitas estava hospedado no hotel mais antigo da cidade do Porto, o Grande Hotel de Paris. Sentiu-se mal e, como era costume, chamou-se o seu familiar, o médico Vicente Urbino de Freitas. O homem foi então visto e acudido por ele, e acabou por morrer a 2 de janeiro de 1890. A segunda vítima deste caso foi o sobrinho [de Urbino de Freitas], o Mário, a 2 de abril de 1890.
Depois de mais de 18 anos à procura, foi encontrado o cadáver de Mário, que estava encerrado num caixão de chumbo, altamente preservado e conservado, e então foi possível repetir a autópsia – mais de 130 anos depois da sua morte.
E lá está, aquelas substâncias que teriam levado à condenação de Vicente Urbino de Freitas não estavam nesta vítima. E há ainda todo um outro conjunto de circunstâncias que foram alimentando toda a história, porque isto acontece com amêndoas e bolos de chocolate que foram remetidos de Lisboa. É, como digo, um longo processo de reconstruir a História e repor alguma verdade…
JPN - Com essa autópsia, verificou algumas incongruências? Conseguiu chegar à causa da morte dessa vítima?
RDO - As incongruências já foram dissipadas e, de facto, há muitas incongruências. Não há, para já, uma definição da causa da morte. E não quer dizer que se venha a saber, porque são amostras muito nobres e têm que ser trabalhadas com muito cuidado, para não se desperdiçar. Caso contrário tornam-se irrecuperáveis, porque não são amostras repetíveis.
Mas, do ponto de vista daquilo que era a suspeita das substâncias que terão sido encontradas nessa vítima, essas substâncias não existem do todo no cadáver. As substâncias que levaram à condenação não foram encontradas. Não quer dizer que não possam existir outras, mas temos que continuar a procurar.
JPN - E esta investigação levou então a que fosse produzida uma minissérie. Como é que surgiu esta ideia? Partiu de si? Foi-lhe feito o convite pela FMUP?
RDO - Foi feito o convite pela Faculdade de Medicina, até porque isto tem a ver também com a comemoração do Bicentenário da faculdade.
E já há muito tempo que nós trabalhamos este assunto do crime da Rua das Flores, e ele começou a ganhar muito peso e muito reconhecimento dos alunos e da sociedade, com muitas entrevistas nos meios de comunicação social nacionais.
E uma das figuras mais importantes da história da Faculdade de Medicina é o próprio Vicente Urbino de Freitas. Só que esta história – esta parte da História da instituição – não estava contada, porque acaba por ser um dos pontos mais negros da vida da faculdade, mas olhando para trás no tempo, a história não precisa de ser assim tão sombria.
E houve então o interesse da FMUP de fazer esta minissérie, que nasce de uma ideia do Gabinete de Comunicação e Imagem da Faculdade de Medicina, e de um conjunto de ideias que fomos trocando nos corredores, ao longo de vários dias, várias semanas, vários meses, vários anos.
E aqui está esta minissérie, para repor os factos, agora que já temos provas. Já temos todo um conjunto de documentos nobres, espetaculares. Há coisas de facto únicas que foram recuperadas que são de um valor incalculável.
Como já temos aqui muita informação técnica, foi possível fazer essa tal minissérie com a documentação que foi recuperada e contar a história como ela realmente aconteceu.
Esta é uma forma de investigação muito difícil, porque é recuperar aquilo que está perdido no mundo e que não está à distância de um clique. Nós estamos habituados a clicar e a encontrar informação, mas este trabalho é de um nível de dificuldade de investigação científica que não é comparável. Eu já fiz quase meio milhar de estudos e nada é tão complexo como isto. Nada absorve tanto, porque a informação não é ‘passo a passo’. Nós descobrimos uma coisa e imaginamos o passo a seguir. E depois descobrimos aquela outra coisa e imaginamos o passo a seguir. Mas será que foi assim? Será que aconteceu isto? Será que aquela pessoa se cruzou com esta? Será? - É sempre o ‘será’.
E tendo a ideia, é começar a procurar. Soube-se que ele viajou para Angola, e pensa-se ‘será que as provas estão em Angola’? Ele um dia andou de comboio até Coimbra, será que alguma coisa ficou no comboio? E agora vamos à procura do comboio. Quem é que viajou? Quem é que vendeu o bilhete do comboio? Até sobre isso viemos a descobrir coisas espetaculares: que o fundador da Agência Abreu vendeu um bilhete a Vicente Urbino de Freitas, e conseguimos que esse bilhete fosse recuperado.
Este caso toca tudo e mais alguma coisa. O nascimento da cirurgia, o nascimento da medicina legal, o nascimento da toxicologia, e o nascimento da Universidade do Porto. Há um mundo de ramificações à volta. Tanto quanto sabemos, há de ter sido uma das primeiras vezes que os meios de comunicação estrangeiros – como o "Figaro", o "The Times" – vieram a Portugal. E houve também peritos estrangeiros que estiveram em Portugal para ajudar na investigação deste caso, há químicos que dão o nome a tudo o que é investigações químicas do século XXI, que estiveram envolvidos neste caso.
JPN - Este caso tem claramente muito pano para mangas. Como é que foi pegar em toda essa informação e depois planear e desenvolvê-la em cinco episódios? Como é que foi esse processo? Ainda mais para uma pessoa que, com certeza, não terá experiência na produção de projetos audiovisuais.
RDO - Quem fez a produção audiovisual integralmente foi a Unidade de Gestão de Comunicação da FMUP. E depois eu tive que desenvolver uma competência que não tinha, que é a de relator, de participar em filmagens. Estou habituado a meios de comunicação social, mas a parte de teatralizar não me está no sangue. Nunca tive formação para isso, mas foi uma aprendizagem espetacular.
E nós pretendemos continuar com isto, porque há muito ainda para relatar. E agora tenho esta ideia de fazer aulas de formação de audiovisual ou de teatro para continuar a contar esta história e outras que fizeram parte da história científica da Universidade do Porto.
Nós temos já muita gente a contar histórias, mas não as conta pelo lado científico, até porque isso envolve uma expertise muito mais aprofundada. E nós conseguimos isso, conseguimos trazer a ciência para dentro da história e contar como realmente aconteceu, fazendo como hoje em dia se faz com alguma decisão em tribunal: através da prova científica e não da opinião, do ‘diz que viu’, e ‘diz que deixou de ver’.
JPN - Há mais casos deste género em Portugal, de que já tenha conhecimento e que considera que também podiam dar boas minisséries, boas investigações?
RDO - Há, há alguns. Há vários, aliás. E nós pretendemos trazê-los aos poucos, mas sempre com a noção de que a nossa preocupação é trazer a ciência para dentro do caso.
JPN - Está com algum em vista para o futuro?
RDO - Eu estou com um em vista, mas não queria falar já dele.
Mas realmente a minha convicção é que muitos destes casos que ficaram por resolver possam vir a ser resolvidos e recontados, mesmo que já tenham sido julgados.
Muitas das pessoas já desapareceram, já morreram, e alguns deles até injustiçados. Por exemplo, quando Vicente Urbino de Freitas regressou a Portugal depois de ter estado mais de 20 anos ausente, a primeira preocupação dele foi chegar ao Porto e começar a batalha para provar a sua inocência. Ele acreditou na sua inocência, sabe-se lá porquê, até ao fim da sua vida. E acabou por morrer sem ver resolvida esta questão – coisa que estamos a fazer agora, com nova ciência a que não foi possível recorrer à data dos factos.