Dos dez anos de Presidência, o Porto guarda de Marcelo "afetos", "simpatia" e "humanismo"

Do Bolhão ao Bairro do Cerco, da Adega A Viela ao ateliê do Mestre Bessa, o JPN revisitou, na cidade, alguns dos muitos lugares por onde Marcelo passou, para saber que memórias ficam nos que o conheceram.

Presidente Marcelo no Porto. Fotos: CMPorto, Presidência da República,JPN, António Bessa (D.R.), MIRA Galerias (D.R.)

“Então, Rosa, o que vamos comer?” Na sua segunda visita à Adega A Viela, em 2018, Marcelo Rebelo de Sousa parecia já conhecer os cantos à casa. Entrou na cozinha – dispensando o guarda-costas – e prontamente pegou no testo do panelão que Rosa Meireles, cozinheira e proprietária, estava a preparar. “Ele diz-me: ‘eu quero daqui destes rojõezinhos, porque o meu amigo Rui Moreira e o Pacheco Pereira dizem que são os melhores da cidade do Porto’”, recorda ao JPN a dona do restaurante.

Rosa já está bem habituada à presença de figuras da política no seu restaurante. Desde que o MIRAGalerias se instalou nos velhos armazéns da Travessa de Miraflor, o ambiente desta ruela junto à estação de Campanhã mudou: “desde que a dona Manuela [co-proprietária do MIRA] veio, atraiu muita gente para aqui. Escritores, jornalistas, fotógrafos…” que acabam por frequentar a Adega, explica Rosa Meireles.

Foi depois de uma apresentação de José Pacheco Pereira, no MIRA, que Marcelo Rebelo de Sousa primeiro visitou este restaurante, tão famoso pelas iscas e pelas tardes de fado vadio.

“Dizem que a Rosa não presta, e ele veio cá tirar as teimas”, recorda a cozinheira. O seu filho André acrescenta: “Estava ali muita gente na rua principal e ele, para fugir, veio aqui pela viela e nós convidamo-lo para vir beber um copinho de verde branco. E ele disse que vinha”.

A segunda visita do Presidente, no dia de inauguração do Mercado Temporário do Bolhão, já foi diferente. Por estar planeada, cumpriram-se os procedimentos habituais: “antes até veio cá um segurança ver se o restaurante tinha saídas de emergência por trás”, conta Rosa Meireles.

Por já se saber da vinda do Presidente, preparou-se um banquete. “Nesse dia, eu pus ali na mesa rojões, costeletão de vitela, picanha, muita coisa…”, enumera a dona do A Viela.

Por estas bandas, Marcelo é muito acarinhado. “É uma pessoa muito humana, muito simpática”, elogia Rosa Meireles. A opinião é partilhada por Manuela Matos Monteiro, que ao privar com Marcelo Rebelo de Sousa, ficou impressionada com “o afeto que ele tinha com as pessoas”, revelando que “no princípio, quando o via na televisão, achava que aquilo era ‘construído’, mas não era. Ele é uma pessoa de proximidade, de corpo.

A curadora do MIRA Galerias recorda como, numa visita a propósito de uma exposição, a rua se encheu ao saber da presença do Presidente: “foi um São João”.

Manuela Matos Monteiro vê o Presidente como “uma pessoa culta”, característica que funcionou como uma mais-valia para o panorama cultural da cidade durante os mandatos de Marcelo. “Ele valorizava a cultura e por isso ajudou-a”, remata.

No Cerco, “percorreu o bairro todo”

A freguesia de Campanhã já não é estranha às visitas de Marcelo Rebelo de Sousa. Quando se tornou Presidente da República em 2016, incluiu o Porto no programa da tomada de posse, e essa passagem pela Invicta levou-o até ao bairro do Cerco, onde foi recebido com música. Para além da divertida atuação no Largo dos Afetos, com os rappers do projeto Oupa!Cerco, também marcou presença junto dos mais pequenos.

Paulo Alexandre, animador cultural no Centro de Dia do Cerco, foi o responsável por preparar a apresentação musical das crianças do jardim de infância do bairro, onde na altura desempenhava funções de técnico de educação. “A visita do Presidente estava agendada. Houve alguma preparação para que pudéssemos presenciar a figura do Estado que nos vinha visitar”, contou ao JPN, relembrando os procedimentos de segurança efetuados na semana que antecedeu a visita.

A presença do Presidente nesta zona da cidade não passou despercebida, confirma Paulo Alexandre: “estava lá fora muita gente, chamou muito a atenção das pessoas daqui”, relata. O animador considera que Marcelo foi um presidente próximo do povo, que “caiu no goto da população portuguesa”, mas que, apesar de tudo, tem “os seus calcanhares de Aquiles”, dando o exemplo do caso das gémeas.

A técnica Susana, colega de Alexandre, também recorda uma segunda – e não programada – visita de Marcelo, em 2021: “Lembro-me perfeitamente, ele percorreu o bairro todo”. 

Essa visita inesperada realizou-se no contexto da tomada de posse do segundo mandato. No mesmo dia, o Presidente da República esteve numa cerimónia com representantes de diversas confissões religiosas, na Câmara do Porto, após a qual se dirigiu para o Centro Cultural Islâmico, na rua do Heroísmo.

Para Abdul Mangá, presidente da entidade, “foi uma honra” receber Marcelo Rebelo de Sousa. O representante da comunidade Islâmica no Porto considera Marcelo “um homem de afetos, de muita amabilidade, de muito diálogo com as pessoas, sem distinção de raças ou credos”, tendo sido “um excelente Chefe de Estado”.

O Bolhão não esquece “o Marcelinho”

Seguimos para o centro da cidade, para recordar “um dia maravilhoso”, na opinião de Paula Viana. A responsável pela Frutaria do Bolhão, dentro do famoso mercado, não esquece o dia em que conheceu Marcelo. “É uma pessoa de quem gosto muito”, reforça.

Os vendedores do Mercado do Bolhão já estão na sua localização habitual desde 2022, mas nem sempre foi assim. Durante as obras de requalificação do edifício, mudaram-se para a cave do antigo centro comercial La Vie, onde se instalou um mercado temporário inaugurado pelo Presidente da República.

Cecília Barbosa, conhecida como “A Russa”, recorda como nesse dia Marcelo se divertiu com a sua cadeira giratória. A vendedora de legumes elogia a atitude do presidente, que podia ter negado entrar na brincadeira, mas “foi na onda”, relembra entre risos. A responsável pela banca gostou da prestação do Presidente durante estes dez anos à frente do país, mas admite que, por vezes, não aprovava o estilo descontraído de Marcelo: “acho engraçado, mas há coisas que… Ele tem de respeitar a postura [da posição] dele”, afirma.

Não é a única com considerações sobre este cargo. Umas bancas ao lado, Ermelinda Monteiro opina sobre como “exercer um cargo destes não é fácil”. A vendedora diz que leva “boas memórias” desta Presidência, mas que está na hora de Marcelo Rebelo de Sousa “ir descansar”. Lurdes Costa – a “Lurdes das Toalhas” – partilha desta opinião. A vendedora tem “pena que ele vá sair, mas a idade também não permite continuar sempre”.

Subindo à varanda do Mercado, encontramos o restaurante D.Gina, onde o Presidente da República almoçou em outubro de 2025, a convite de Rui Moreira, o então presidente da Câmara do Porto. Nuno Fernandes gere o espaço com a mãe, que o abriu há mais de 30 anos. O gerente recorda que, quando Rui Moreira lhe ligou a efetuar a reserva, não teve curiosidade em saber quem o ia acompanhar. Só no dia do almoço é que se apercebeu de que quem vinha era Marcelo Rebelo de Sousa. Não se lembra se o Presidente comeu um prego ou se foi tripas, mas há algo que ainda hoje lhe fica na memória. Marcelo – ou “Marcelinho”, como carinhosamente o apelidou – quis comer a sopa só depois da refeição.

Presidente Marcelo “tomava a cidade do Porto como sua”

Este encontro entre presidentes foi um dos inúmeros que se foram realizando ao longo dos dois mandatos de Marcelo Rebelo de Sousa. Em entrevista ao JPN, Rui Moreira recordou os bons momentos passados na companhia do Presidente Marcelo, que considera ser “o grande influencer português”.

O balanço que faz da Presidência é positivo. O ex-presidente da Câmara do Porto elogiou largamente a sua atitude “de empatia” durante os incêndios de Pedrógão e afirmou que Marcelo deixa um legado de “humanização da política”.

Quanto à relação de Marcelo Rebelo de Sousa com a cidade do Porto, Rui Moreira garante ser “uma relação íntima e de grande apreço”, recordando os passeios habituais do PR pela zona da Foz, em visita a amigos pessoais, as caminhadas que gostava de fazer no Parque da Cidade, as idas à Feira do Livro, e as visitas em contexto profissional. “Ele tomava a cidade do Porto como uma cidade também sua”, acrescenta.

Um retrato, um abraço

O retrato da relação de Marcelo Rebelo de Sousa com a Invicta tem também a mão de António Bessa, um artista anónimo da cidade que esteve perto de entrar na galeria de Belém. A história não teve um final feliz, mas nem isso beliscou a memória afetiva do pintor face ao Presidente cessante.

É no seu ateliê, na Rua do Almada, que o artista conhecido por “Mestre Bessa” recebe o JPN, recordando a forma como o retrato do Presidente mudou a sua vida.

Na primeira vez que o conheceu, numa ocasião em que Marcelo visitou o Porto para receber os reis de Espanha, Mestre Bessa pediu-lhe um abraço. “Eu senti que, naquele dia, naquele abraço, não era um abraço de um homem, nem de um presidente, mas sim de Portugal”, recorda.

Foi nesse dia que decidiu pintar o retrato de Marcelo Rebelo de Sousa, que intitulou “Ser presidente de um povo é ser povo”. Mostrou-lhe a obra posteriormente, noutra das visitas do PR à cidade. Marcelo elogiou o quadro e quis ficar com ele. Perguntou ao artista quanto custava. Mestre Bessa respondeu-lhe que tinha o custo “de um abraço”.

Depois desse dia e do reconhecimento do Presidente, a vida e carreira de António Bessa mudou. “Ele moveu muita glória para a minha vida. A partir daí tive muitas coisas boas. As pessoas tinham curiosidade e começaram a gostar da minha obra. E isso disparou [as vendas]”, recorda.

Mestre Bessa gostou do Presidente Marcelo “logo no primeiro dia” em que este assumiu o cargo. Recorda a ocasião em que Marcelo veio ao seu ateliê: “ele não veio numa visita [formal], nem veio acompanhado de segurança. E cumprimentava toda a gente. Eu achei aquilo fantástico. Um exemplo de continuar com o estatuto de cidadão, mesmo como Presidente.”

Uma vez que a obra pintada por António Bessa não será o retrato oficial – Vhils (Alexandre Farto) acabou por ser o escolhido – vai ser exposta na Biblioteca Municipal Prof. Marcelo Rebelo de Sousa, em Celorico de Basto.

Mesmo não tendo uma obra sua exposta em Belém, não guarda mágoa. Para Mestre Bessa, o que fica destes dez anos de Marcelo como Presidente é “gratidão, muita gratidão”. Os afetos, sempre os afetos, são o lastro que fica nos lugares por onde passou.

Originalmente publicado a 06/03/2026 no JPN (JornalismoPortoNet).

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