Rui Moreira sobre Marcelo: "Ele é o grande influencer português" e "tomava a cidade do Porto como sua"

Em entrevista ao JPN, o ex-presidente da Câmara do Porto reflete sobre o legado deixado pelo Presidente cessante, Marcelo Rebelo de Sousa.

Marcelo Rebelo de Sousa e Rui Moreira junto a uma comerciante, durante inauguração do Mercado Temporário do Bolhão, em 2018. Foto: Linda Melo/JPN

Durante os dez anos de presidência de Marcelo Rebelo de Sousa, não foi rara a ocasião em que foram vistos juntos. Rui Moreira, presidente da Câmara do Porto entre 2013 e 2025, abriu as portas da cidade às visitas frequentes do Presidente da República. A poucos dias de Portugal mudar de chefe de Estado, o agora embaixador de Portugal da OCDE faz um balanço sobre a Presidência daquele que considera ser “o presidente dos afetos”.

JPN – Como era a relação do Presidente Marcelo com a cidade?

Rui Moreira (RM) – Era uma relação íntima e de grande apreço. Ele vinha cá muitas vezes. Normalmente instalava-se no Hotel Sheraton. Gostava de sair à noite para as suas caminhadas, gostava de ir ao Augusto da Foz – uma mercearia que há no Passeio Alegre – ver vinhos, gostava de visitar os seus amigos pessoais. Ele também fazia a sua vida pessoal cá por cima. No plano institucional, também era uma visita assídua. Quer a Serralves, onde ia muitas vezes a inaugurações, quer à Feira do Livro, a que ele nunca faltou. Nas celebrações do São João, fazia sempre questão de andar pela rua a falar com as pessoas. E trouxe cá uma série de estadistas importantes, nomeadamente os Reis de Espanha, que foi um momento particularmente interessante para a cidade do Porto. Ele também olhava para a importância do Porto, que tinha sido um pouco esquecido pelo seu antecessor, nas visitas de Estado mais importantes.

JPN – O presidente Marcelo era um Presidente atento à cidade do Porto?

RM – Totalmente. Sim. Aliás, já depois de eu ter abandonado [a presidência de câmara] e de ter havido eleições, mas numa altura em que eu ainda estava no cargo, tive a oportunidade de andar um dia inteiro com ele, em que fomos ao Batalha, fomos ao Bolhão, fomos dar uma volta, ver obras… Também cheguei a vê-lo na altura do Primavera Sound, a andar a pé no Parque da Cidade. Ele, portanto, tomava a cidade do Porto como uma cidade também sua.

JPN – Tem alguma memória mais caricata das suas interações com o Presidente?

RM – Não posso dizer. Peço desculpa. Tenho muitas coisas caricatas, mas não posso dizer. (risos)

JPN – Na qualidade de presidente do PSD, o Professor Marcelo não se mostrava favorável à regionalização, mas na tomada de posse do segundo mandato, mostrou-se aberto à ideia de se realizar um novo referendo. Como vê a forma como Marcelo Rebelo de Sousa se posicionou sobre a regionalização?

RM – Eu acho que o professor Marcelo Rebelo de Sousa é claramente contra a regionalização, não tenho nenhuma dúvida. Ele e o engenheiro Guterres foram os grandes responsáveis por, na altura, não ser feita a regionalização. Foi um entendimento entre eles, que depois contribuiu para que a regionalização não fosse feita. Não acho que ele tenha mudado de opinião sobre isso.

JPN – Qual é que é a sua visão relativamente a estes dez anos de presidência? Que balanço é que faz?

RM – Recentemente, numa coluna no semanário Sol, escrevi sobre Marcelo Rebelo de Sousa como presidente. Eu acho que ele foi verdadeiramente o presidente dos afetos. O seu fotógrafo favorito escreveu que ele era quase um ‘rockstar’. Eu acho que ele fez isso. Ele já tinha feito isso lá atrás, em 2006, quando de repente, por causa da participação de Portugal no Mundial de futebol, nos pôs a todos a pôr as bandeiras de Portugal nas varandas. Ele é, de facto, um grande influencer. É o grande influencer português. O que é extraordinário, ser presidente da República e ser influencer. Acho que nos influenciou muito e no bom sentido. Acho que o país fica com uma dívida de gratidão e vai ficar com saudades.

JPN – Quais são os momentos altos e memórias queridas que lhe ficam desta presidência?

RM – Acho que Marcelo Rebelo de Sousa foi extraordinário nos incêndios de Pedrógão. Foi talvez o momento em que percebemos que, independentemente do político atento e dos afetos, ele é um homem que tem um grande coração e uma grande capacidade de empatia com as pessoas que mais sofrem. Foi o momento em que ele quase disse que se ia embora, porque quase não conseguia gerir a dor que sentiu por aquilo que viu. Acho que esse foi o grande momento de Marcelo Rebelo de Sousa.

JPN – E, por outro lado, qual o momento mais negativo do Presidente, nestes 10 anos?

RM – Acho que ele foi vítima de uma coisa horrível e injusta, acerca do caso das gémeas, que lhe deixou uma mágoa profunda. Não estou a dizer que ele tem culpa, pelo contrário, eu acho que ele é completamente inocente no caso e queria que isso ficasse mesmo escrito. Acho que ele, sendo inocente, sentiu que havia uma injustiça relativamente às coisas que disseram dele e as suspeitas que levantaram e que levaram, nomeadamente, a um drama pessoal de cortar relações com o filho, que é uma coisa horrível e que nós dificilmente podemos imaginar. Eu acho que isso lhe deixou uma mágoa muito grande, uma angústia. Esse foi talvez o seu pior momento.

JPN – A seu ver, qual é o legado deixado no cargo de Presidente da República por Marcelo Rebelo de Sousa?

RM – A humanização da política.

Originalmente publicado a 04/03/2026 no JPN (JornalismoPortoNet).

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