Trabalhadores do setor social exigem “mais salário, menos horário”

Concentração em frente à sede da CNIS, no Porto, reuniu centenas de trabalhadores esta quinta-feira (26). Em causa está o retomar de negociações do contrato coletivo de trabalho. A CGTP alega ter sido excluída do processo.

Manifestação de trabalhadores de IPSS, em frente à sede da CNIS, no Porto. Foto: Maria Saraiva Brandão/JPN

Numa ruidosa concentração à porta da Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade (CNIS), centenas de trabalhadores de Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS) deixaram palavras de ordem pelo aumento de salários e a valorização de carreiras, esta quinta-feira (26). Num abaixo-assinado entregue à CNIS, acusam a entidade de desvalorizar “sucessivamente” o seu trabalho.

Os manifestantes exigem aumentos salariais superiores aos que foram acordados com a UGT, durante uma negociação da qual a CGTP alega ter sido excluída.

Emília de Sousa, de 64 anos, é presença assídua nas manifestações do setor social. É cozinheira numa instituição em Vila do Conde e queixa-se do baixo salário: “ganho muito pouco, levo 860 euros para casa”. Mariana Morgado, sua colega de trabalho, acompanha-a na concentração “não só pelo ordenado”, mas também pelo facto de ser mãe e não conseguir conciliar o horário laboral com a vida familiar. No entanto, a jovem não tem expectativas altas quanto ao sucesso da ação de protesto: “estamos aqui, greve após greve e é tudo igual”, confessa ao JPN.

Ao fim da manhã, representantes dos sindicatos afetos à CGTP estiveram reunidos com a mesa negocial da CNIS durante cerca de uma hora.

Ana Rodrigues, da Federação Portuguesa dos Sindicatos de Comércio, Escritórios e Serviços (FEPCES), não ficou satisfeita com o encontro. Em declarações aos jornalistas, a porta-voz considera que os aumentos salariais propostos estão “muito abaixo” daquilo que os sindicatos consideram justo, e que isso “não vai ao encontro da valorização das carreira”.

Confrontada com as queixas dos trabalhadores do setor, a CNIS vira-se para o governo que acusa de “autismo” e “violência na negociação” e de desvalorizar os problemas dos trabalhadores e associações do setor social não lucrativo. Alfredo Cardoso, membro da direção da CNIS, foi o porta-voz das críticas e adiantou que o executivo ainda não assinou o compromisso de cooperação com o setor. Mais: assegurou que a própria CNIS ainda não decidiu se aceita esse acordo: “o que está em cima da mesa é um aumento de 4.7%. Nós não estamos de acordo e não sabemos se vamos assinar”. Em conferência de imprensa à margem da manifestação, o responsável avança que esta semana o governo lançou “um ultimato”: ou se optava pela proposta do executivo, ou então pelo valor previsto em portaria.

No que toca à alegação por parte da CGTP de que teriam sido excluídos do processo de negociação, Alfredo Cardoso diz que “não é verdade”: “fomos apurando com todos o contrato [coletivo de trabalho], mas fomos avisando que haveria um momento de chegarmos ao fim [das negociações]. A UGT acordou as propostas que colocamos e continuamos a falar com a CGTP e com a Função Pública”, afirma.

A par da concentração e vigília durante todo o dia junto à sede da CNIS, no Porto, os sindicatos e federações sindicais representados na CGTP convocaram greve nacional do setor para esta quinta-feira, cuja adesão dizem ter rondado os 80%.

Originalmente publicado a 27/03/2026 no JPN.

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