Jovens iranianos em Portugal confessam ter “sentimentos contraditórios” sobre o conflito com os EUA e Israel
Dificuldades nas comunicações com familiares e incerteza sobre o futuro do país preocupam iranianos a viver em Portugal. O JPN falou com dois jovens estudantes da Universidade do Porto.
A ofensiva lançada pelos Estados Unidos e por Israel já matou mais de 1.300 iranianos, segundo estimativas da OMS. Foto: Wikimedia Commons
Roya (nome fictício) não pretende regressar ao Irão. A estudante de mestrado de uma das faculdades da Universidade do Porto está há anos em Portugal. Veio estudar para cá porque era a forma mais “fácil e rápida” de sair do Irão. A universitária conta que, quando saiu do país-natal, a situação social e política “já estava muito má”.
“Viver lá é muito mau por causa da pressão, manipulação e ‘lavagem-cerebral’ constante, em todos os aspetos da vida”, relata Roya.
A jovem saiu do país, mas todos os seus familiares permanecem lá. Com o bloqueio do acesso à internet imposto pelo regime no início deste ano — prática comum no Irão, em momentos de maior tensão política e protestos civis, como foi o caso das manifestações de janeiro de 2026, em que milhares de iranianos foram mortos pelas autoridades — Roya só consegue receber chamadas ou mensagens da família esporadicamente.
Na mesma situação está Amir Orouji, estudante de Doutoramento da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP). Ocasionalmente, a família tem conseguido ligar-lhe por telefone fixo, mas o estudante explica que as taxas são muito elevadas, uma vez que se trata de uma chamada internacional, e que normalmente, após um minuto, acabam por cair. Grande parte da família do jovem vive na parte este do país, longe da capital, e até ao momento não terá sido afetada pelos bombardeamentos.
Ambos os estudantes confessam ter “sentimentos contraditórios” relativamente aos recentes ataques ao Irão por parte dos EUA e Israel, que resultaram no assassinato do líder supremo Ali Khamenei, no dia 28 de fevereiro.
Apesar de não querer que o seu país de origem seja bombardeado, Roya sente que “não restava nenhuma outra opção” para além da intervenção externa. A jovem confessa que é difícil para si admitir isso, mas que, após se terem feito “muitas manifestações nas ruas” ao longo dos anos, que resultaram em “massacres em massa de estudantes, civis e crianças” e que fizeram com que muitas pessoas tenham sido “presas e executadas”, a frustração dos cidadãos com o regime teocrático levou a que começassem a considerar um eventual ataque por parte dos EUA como a única saída possível. “Por mais que tentássemos, não conseguíamos nada, apenas mais e mais pessoas eram mortas. Por isso, precisávamos mesmo de ajuda”, afirma Roya, acrescentando que “as pessoas celebraram nas ruas quando Khamenei foi morto”.
Estes sentimentos contraditórios são partilhados por Amir: “estou feliz que a ditadura [de Ali Khamenei] tenha acabado e que nos livramos dela, mas ao mesmo tempo estou triste porque muitas pessoas do meu povo estão a morrer nesse processo”, explica o jovem estudante da FEUP. Mesmo com as mortes que estão a resultar da guerra com os EUA e Israel, Amir acredita que o número de vítimas ainda não superou o de iranianos mortos pelo próprio regime durante os protestos de janeiro.
Futuro do país ainda incerto
Mesmo considerando as ações de Trump “imprevisíveis”, Amir crê que já era possível prever este ataque. “Muitos analistas políticos concordavam que o ataque poderia acontecer, especialmente depois de recursos militares dos Estados Unidos, como o navio de guerra Abraham Lincoln, se terem deslocado para a região sul do Irão e entrado no Golfo de Omã, quando as negociações [entre países] ainda estavam em curso”, explicou o jovem.
Os jovens estudantes não sabem o que vai acontecer a seguir, nem conseguem prever quanto tempo mais vão durar os bombardeamentos. No entanto, Roya considera que “se [os EUA] saírem agora, vai ser pior do que nunca”. A jovem esclarece que as “personagens principais do poder iraniano”, como os irmãos Larijani e o presidente do Parlamento, Mohammad Ghalibaf, ainda de encontram vivos e que, apesar de não saber exatamente o que Trump e Netanyahu estão a pensar fazer, espera que “pelo menos eles expulsem estes homens do país”. Quanto ao novo líder-supremo, Mojtaba Khamenei, segundo filho do último líder iraniano, Roya considera que “é ainda pior e mais extremista do que o seu pai”, pertencendo a uma linha mais dura do regime.
Num futuro ideal, Roya gostaria que, através da intervenção externa que está a decorrer, se expulsassem os grandes apoiantes do regime, e que eventualmente os soldados de nível inferior “desistissem e entregassem as suas armas”, mas diz saber que esta esperança é “extremamente otimista” e que “a realidade vai ser bem mais caótica e complicada”.
Amir suspeita que o regime iraniano queira prolongar o conflito, porque “é bom para a sua existência que se escale ainda mais, e que se involvam outros países, na esperança que isso impeça os EUA de ficar na região, e que assim [o regime teocrático] consiga sobreviver e possam continuar no poder”.
Estudante esperava mais atenção da U.Porto
O primeiro ataque dos EUA e Israel ao Irão — como parte da Operação Fúria Épica — ocorreu na manhã de 28 de fevereiro. Roya critica a Universidade do Porto, uma vez que, desde aí, ainda não houve qualquer comunicação dirigida aos estudantes iranianos por parte da entidade: “eles nunca enviaram um e-mail em solidariedade ou a dizer que desejam que nós estejamos bem, ou a perguntar se precisamos de apoio psicológico ou financeiro. Nunca disseram nada. Ignoraram-nos completamente”, acusa a jovem.
Até ao momento, já se registaram mais de 1.800 mortos, como resultado do conflito, a maioria no Irão e no Líbano, segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS). A guerra no Médio Oriente já afetou vários países, como os Emirados Árabes Unidos, o Iraque, o Qatar e a Arábia Saudita. A principal consequência política da Operação Fúria Épica — que surgiu na sequência de discussões sobre armas nucleares do Irão — foi a morte do líder-supremo iraniano, o aiatola Ali Khamenei, que estava no poder desde 1989.