António de Sousa Pereira diz adeus à Reitoria com críticas à burocracia e apelo à descentralização
Foi a última intervenção oficial de António de Sousa Pereira: “tem sido uma honra e um enorme privilégio ser vosso reitor”. António Costa foi orador convidado da Sessão Solene do Dia da Universidade, esta segunda-feira (23).
Francisco Freire de Sousa, António de Sousa Pereira, António Costa e Luís Braga da Cruz na Sessão Solene dos 115 anos da U.Porto. Foto: Joana Cardoso/JPN
Naquela que foi a última Sessão Solene em que interveio como reitor, após oito anos no cargo, António de Sousa Pereira classificou a cerimónia como “o momento mais solene do calendário académico”. Em tom de despedida, deixou uma mensagem de agradecimento à comunidade académica que liderou entre 2018 e 2026: “tem sido uma honra e um enorme privilégio ser vosso reitor”.
A Universidade do Porto assinalou este domingo (22), 115 anos. A data foi celebrada na Sessão Solene do Dia da Universidade, realizada esta segunda-feira (23), no Salão Nobre da Reitoria.
No discurso de encerramento do encontro – que contou também com intervenções de Fernando Freire de Sousa, presidente do Conselho Geral, Luís Braga da Cruz, presidente do Conselho de Curadores, Francisco Porto Fernandes, presidente da Federação Académica do Porto (FAP) e Paulo Gusmão Guedes, representante dos trabalhadores da UP — o reitor sublinhou o aumento da oferta formativa e do número de estudantes inscritos ao longo do mandato. Sublinhou ainda a aposta na inovação e a posição competitiva da instituição no contexto empresarial.
Em declarações ao JPN, no final da cerimónia, António de Sousa Pereira apontou a “burocracia asfixiante” como principal entrave ao desenvolvimento da universidade: “a Universidade poderia ter avançado muito mais”. Para o futuro, deixou um apelo à “desburocratização do sistema” e à descentralização, defendendo que, “apesar da autonomia da Universidade, temos muitos limites que são impostos por mecanismos de controlo central”.
Fazendo um balanço, considerou o período da pandemia como, simultaneamente, o ponto alto e o ponto baixo do reitorado. “Foi o ponto baixo em termos do impacto psicológico. (…) Mas apesar de tudo isso, a Universidade conseguiu manter a sua missão, o processo formativo e ultrapassar isso com sucesso”, recordou ao JPN.
António Costa sobre o “desafio das qualificações”
O presidente do Conselho Europeu, António Costa, foi o orador convidado da sessão. O antigo primeiro-ministro classificou a UP como uma “referência incontornável no espaço europeu”, destacando o trabalho desenvolvido nas áreas da internacionalização, inovação e cultura.
Segundo o ex-primeiro-ministro, a maior transformação que Portugal conseguiu depois destas quatro décadas foi vencer o “desafio das qualificações”. O país, que em 1986 tinha uma taxa de analfabetismo de 18%, tem atualmente 82% da população com, pelo menos, o ensino secundário completo e 42% de diplomados. O presidente do Conselho Europeu destacou o papel das universidades portuguesas e, em particular, da Universidade do Porto nesta evolução, que se reflete numa “economia mais moderna”.
Invocando os 40 anos da entrada de Portugal na Comunidade Económica Europeia (CEE), que se assinalam este ano, António Costa sublinhou o impacto da integração europeia, que “transformou instituições e mentalidades” e “modernizou profundamente a sociedade”.
Em cenário de negociação de um novo ciclo de apoios europeus para o período 2028-2034, António Costa aconselha a que se sigam os objetivos da coesão em todas as políticas. Contudo, adverte que não se pode “pedir à política de coesão aquilo que a política de coesão não pode dar”.
Durante a Sessão Solene, premiou-se a comunidade académica. Foto: Joana Cardoso/JPN
Estudantes, docentes e investigadores premiados
Após um interlúdio musical, seguiu-se a entrega de prémios à comunidade académica. O Prémio Incentivo distinguiu os 23 estudantes que, no ano letivo passado, tiveram as melhores médias do primeiro ano de licenciatura ou mestrado integrado, enquanto o Prémio Cidadania Ativa reconheceu quatro estudantes que se destacaram em atividades extracurriculares de cariz cívico.
Seis docentes e investigadores receberam o Prémio Prática Pedagógica Inovadora. Já o Prémio Excelência na Investigação Científica foi atribuído a cinco profissionais: Aurora Teixeira (FEP), na área de Ciências Sociais, Lucas Filipe da Silva e Manuel Simões (FEUP) nas Ciências Exatas, Mónica Sousa (i3S) na categoria das Ciências da Saúde e da Vida, e Teresa Ferreira (FAUP) nas Artes e Humanidades.
O título de Professor Emérito foi atribuído a nove docentes jubilados ou reformados, pelo contributo prestado à ciência, sociedade e Universidade: António Sarmento (FMUP), Francisco Cruz (FMUP), João Peças Lopes (FEUP), Elisa Ferreira (FEP), Isabel Margarida Duarte (FLUP), Alexandre Quintanilha (ICBAS), Lúcia Almeida Matos (FBAUP), José Marques (FPCEUP) e Marina Serra de Lemos (FPCEUP).
Novo reitor eleito a 24 de abril
O sucessor de António Sousa Pereira vai ser eleito pelo Conselho Geral da UP no dia 24 de abril.
À Comissão Eleitoral foram entregues 14 candidaturas — 11 internacionais e três portuguesas — das quais se conhece o nome de Altamiro da Costa Pereira, diretor da Faculdade de Medicina (FMUP), confirmado pela Agência Lusa, Pedro Nuno Teixeira, professor da Faculdade de Economia (FEP) e Luís Antunes, professor da Faculdade de Ciências (FCUP), ambos avançados pelo JPN. A lista definitiva de candidatos vai ser publicada a 27 de março.
Publicado originalmente a 25/03/2026 no JPN, em co-autoria com Joana Cardoso.